FOTO:
Marco Monteiro
O
fenômeno da Dependência (Addiction)
O comportamento de repetição obedece a dois mecanismos básicos
não patológicos: o reforço positivo e o reforço negativo. O
reforço positivo refere-se ao comportamento de busca do prazer:
quando algo é agradável a pessoa busca os mesmos estímulos para
obter a mesma satisfação. O reforço negativo refere-se ao
comportamento de hesitação de dor ou desprazer. Quando algo é
desagradável a pessoa procura os mesmos meios para evitar a dor
ou desprazer, causados numa dada circunstância. A fixação de uma
pessoa no comportamento de busca do álcool, obedece a esses dois
mecanismos acima apresentados. No começo a busca é pelo prazer
que a bebida proporciona. Depois de um período, quando a pessoa
não alcança mais o prazer anteriormente obtido, não consegue
mais parar porque sempre que isso é tentado surgem os sintomas
desagradáveis da abstinência, e para evitá-los a pessoa mantém o
uso do álcool. Os reforços positivo e negativo são mecanismos ou
recursos normais que permitem às pessoas se adaptarem ao seu
ambiente.
As medicações hoje em uso atuam sobre essas fases: a naltrexona
inibe o prazer dado pelo álcool, inibindo o reforço positivo; o
acamprosato diminui o mal estar causado pela abstinência,
inibindo o reforço negativo. Provavelmente, dentro de pouco
tempo, teremos estudos avaliando o benefício trazido pela
combinação dessas duas medicações para os dependentes de álcool
que não obtiveram resultados satisfatórios com cada uma
isoladamente.
Tolerância e
Dependência
A tolerância e a dependência ao álcool são dois eventos
distintos e indissociáveis. A tolerância é a necessidade de
doses maiores de álcool para a manutenção do efeito de
embriaguez obtido nas primeiras doses. Se no começo uma dose de
uísque era suficiente para uma leve sensação de tranqüilidade,
depois de duas semanas (por exemplo) são necessárias duas doses
para o mesmo efeito. Nessa situação se diz que o indivíduo está
desenvolvendo tolerância ao álcool. Normalmente, à medida que se
eleva a dose da bebida alcoólica para se contornar a tolerância,
ela volta em doses cada vez mais altas. Aos poucos, cinco doses
de uísque podem se tornar inócuas para o indivíduo que antes se
embriagava com uma dose. Na prática não se observa uma total
tolerância, mas de forma parcial. Um indivíduo que antes se
embriagava com uma dose de uísque e passa a ter uma leve
embriaguez com três doses está tolerante apesar de ter algum
grau de embriaguez. O alcoólatra não pode dizer que não está
tolerante ao álcool por apresentar sistematicamente um certo
grau de embriaguez. O critério não é a ausência ou presença de
embriaguez, mas a perda relativa do efeito da bebida. A
tolerância ocorre antes da dependência. Os primeiros indícios de
tolerância não significam, necessariamente, dependência, mas é o
sinal claro de que a dependência não está longe. A dependência é
simultânea à tolerância. A dependência será tanto mais intensa
quanto mais intenso for o grau de tolerância ao álcool. Dizemos
que a pessoa tornou-se dependente do álcool quando ela não tem
mais forças por si própria de interromper ou diminuir o uso do
álcool.
O alcoólatra de "primeira viagem" sempre tem a impressão de que
pode parar quando quiser e afirma: "quando eu quiser, eu paro".
Essa frase geralmente encobre o alcoolismo incipiente e
resistente; resistente porque o paciente nega qualquer problema
relacionado ao álcool, mesmo que os outros não acreditem, ele
próprio acredita na ilusão que criou. A negação do próprio
alcoolismo, quando ele não é evidente ou está começando, é uma
forma de defesa da auto-imagem (aquilo que a pessoa pensa de si
mesma). O alcoolismo, como qualquer diagnóstico psiquiátrico, é
estigmatizante. Fazer com que uma pessoa reconheça o próprio
estado de dependência alcoólica, é exigir dela uma forte quebra
da auto-imagem e conseqüentemente da auto-estima. Com a
auto-estima enfraquecida a pessoa já não tem a mesma disposição
para viver e, portanto, lutar contra a própria doença. É uma
situação paradoxal para a qual não se obteve uma solução
satisfatória. Dependerá da arte de conduzir cada caso
particularmente, dependerá da habilidade de cada psiquiatra.
Aspectos
Gerais do Alcoolismo
A identificação precoce do alcoolismo geralmente é prejudicada
pela negação dos pacientes quanto a sua condição de alcoólatras.
Além disso, nos estágios iniciais é mais difícil fazer o
diagnóstico, pois os limites entre o uso "social" e a
dependência nem sempre são claros. Quando o diagnóstico é
evidente e o paciente concorda em se tratar é porque já se
passou muito tempo, e diversos prejuízos foram sofridos. É mais
difícil de se reverter o processo. Como a maioria dos
diagnósticos mentais, o alcoolismo possui um forte estigma
social, e os usuários tendem a evitar esse estigma. Esta defesa
natural para a preservação da auto-estima acaba trazendo atrasos
na intervenção terapêutica. Para se iniciar um tratamento para o
alcoolismo é necessário que o paciente preserve em níveis
elevados sua auto-estima sem, contudo, negar sua condição de
alcoólatra, fato muito difícil de se conseguir na prática. O
profissional deve estar atento a qualquer modificação do
comportamento dos pacientes no seguinte sentido: falta de
diálogo com o cônjuge, freqüentes explosões temperamentais com
manifestação de raiva, atitudes hostis, perda do interesse na
relação conjugal. O Álcool pode ser procurado tanto para ficar
sexualmente desinibido como para evitar a vida sexual. No
trabalho os colegas podem notar um comportamento mais irritável
do que o habitual, atrasos e mesmo faltas. Acidentes de carro
passam a acontecer. Quando essas situações acontecem é sinal de
que o indivíduo já perdeu o controle da bebida: pode estar
travando uma luta solitária para diminuir o consumo do álcool,
mas geralmente as iniciativas pessoais resultam em fracassos. As
manifestações corporais costumam começar por vômitos pela manhã,
dores abdominais, diarréia, gastrites, aumento do tamanho do
fígado. Pequenos acidentes que provocam contusões, e outros
tipos de ferimentos se tornam mais freqüentes, bem como
esquecimentos mais intensos do que os lapsos que ocorrem
naturalmente com qualquer um, envolvendo obrigações e deveres
sociais e trabalhistas. A susceptibilidade a infecções aumenta e
dependendo da predisposição de cada um, podem surgir crises
convulsivas. Nos casos de dúvidas quanto ao diagnóstico, deve-se
sempre avaliar incidências familiares de alcoolismo porque se
sabe que a carga genética predispõe ao alcoolismo. É muito mais
comum do que se imagina a coexistência de alcoolismo com outros
problemas psiquiátricos prévios ou mesmo precipitante. Os
transtornos de ansiedade, depressão e insônia podem levar ao
alcoolismo. Tratando-se a base do problema muitas vezes se
resolve o alcoolismo. Já os transtornos de personalidade tornam
o tratamento mais difícil e prejudicam a obtenção de sucesso.
Tratamento do
Alcoolismo
O alcoolismo, essencialmente, é o desejo incontrolável de
consumir bebidas alcoólicas numa quantidade prejudicial ao
bebedor. O núcleo da doença é o desejo pelo álcool; há tempos
isto é aceito, mas nunca se obteve uma substância psicoativa que
inibisse tal desejo. Como prova de que inúmeros fracassos não
desanimaram os pesquisadores, temos hoje já comprovadas, ou em
fase avançada de testes, três substâncias eficazes na supressão
do desejo pelo álcool, três remédios que atingem a essência do
problema, que cortam o mal pela raiz. Estamos falandonaltrexona,
do acamprosato e
da ondansetrona. Otratamento do
alcoolismo não deve ser confundido com o tratamento da
abstinência alcoólica. Como o organismo incorpora literalmente o
álcool ao seu metabolismo, a interrupção da ingestão de álcool
faz com que o corpo se ressinta: a isto chamamos abstinência
que, dependendo, do tempo e da quantidade de álcool consumidos
pode causar sérios problemas e até a morte nos casos não
tratados. As medicações acima citadas não têm finalidade de
atuar nessa fase. A abstinência já tem suas alternativas de
tratamento bem estabelecidas e relativamente satisfatórias. O Dissulfiram é
uma substância que força o paciente a não beber sob a pena de
intenso mal estar: se isso for feito, não suprime o desejo e
deixa o paciente num conflito psicológico amargo. Muitos
alcoólatras morreram por não conseguirem conter o desejo pelo
álcool enquanto estavam sob efeito do Dissulfiram. Mesmo sabendo
o que poderia acontecer, não conseguiram evitar a combinação do
álcool com o Dissulfiram, não conseguiram sequer esperar a
eliminação do Dissulfiram. Fatos como esses servem para que os
clínicos e os não-alcoólatras saibam o quanto é forte a
inclinação para o álcool sofrida pelos alcoólatras, mais forte
que a própria ameaça de morte. Serve também para medir o grau de
benefício trazido pelas medicações que suprimem o desejo pelo
álcool, atualmente disponíveis. Podemos fazer uma analogia para
entender essa evolução. Com o Dissulfiram o paciente tem que
fazer um esforço semelhante ao motorista que tenta segurar um
veículo ladeira abaixo, pondo-se à frente deste, tentando
impedir que o automóvel deslanche, atropelando o próprio
motorista. Com as novas medicações o motorista está dentro do
carro apertando o pedal do freio até que o carro chegue no fim
da ladeira. Em ambos os casos, é possível chegar ao fim da
ladeira (controle do alcoolismo). Numa o esforço é enorme
causando grande percentagem de fracassos; noutro o esforço é
pequeno, permitindo grande adesão ao tratamento. Vejamos agora
algumas informações sobre as novas medicações.
Naltrexona
A naltrexona é uma substância conhecida há vários anos; seu uso
restringia-se ao bloqueio da atividade dos opióides. É uma
espécie de antídoto para a intoxicação de heroína, morfina e
similares. Recentemente verificou-se que a naltrexona possui um
efeito bloqueador do prazer proporcionado pelo álcool, cortando
o ciclo de reforço positivo que leva e mantém o alcoolismo. A
naltrexona foi a primeira substância a atingir a essência do
alcoolismo: o desejo pelo consumo de álcool. Como era uma
medicação conhecida quanto aos efeitos benéficos e colaterais,
sua utilização para o alcoolismo foi relativamente rápida pois
já se encontrava no mercado há muitos anos: bastou que se
acrescentasse na bula uma nova indicação, o tratamento do
alcoolismo. Os principais efeitos colaterais da naltrexona, o
enjôo e o vômito não são intensos o suficiente para impedir o
seu uso. Os principais efeitos da naltrexona são inibir o desejo
pelo álcool e mesmo que se beba, o prazer da sensação de estar
"alto" é abolido. Assim, a bebida para o alcoólatra em uso de
naltrexona se torna sem graça. Como não há uma interação danosa
entre Álcool e naltrexona, a naltrexona exerce uma real
atividade terapêutica. Os estudos mostram que a recaída do
alcoolismo é menor entre as pessoas que fazem uso de naltrexona
em relação ao placebo; o baixo índice de efeitos colaterais da
naltrexona permite que os pacientes adiram ao tratamento
prolongado. Agora ficou mais fácil diferenciar o alcoólatra
impotente perante seu vício daquele que simplesmente não quer
abandonar o prazer da embriaguez. O paciente que se nega a
tratar-se por perceber que a naltrexona abole o prazer é o
alcoólatra por opção; aquele que adere ao tratamento era a
vítima do vício. Por fim, não podemos esquecer que nem todos os
pacientes se beneficiam da naltrexona, ou seja, há uma parcela
da população que mesmo em uso da naltrexona mantém o prazer da
bebida e nesses o tratamento é ineficaz. A naltrexona foi o
primeiro e grande passo para o tratamento do alcoolismo, mas não
resolveu todo o problema sozinho.
Acamprosato
Essa substância ao contrário da naltrexona é nova e foi criada
especificamente para o tratamento do alcoolismo. Está sendo
introduzida no mercado brasileiro pela Merck, mas já é usada na
Europa há alguns anos. O mecanismo do acamprosato é distinto da
naltrexona embora também diminua o desejo pelo álcool. O
acamprosato atua mais na abstinência, reduzindo o reforço
negativo deixado pela supressão do álcool naqueles que se
tornaram dependentes. Podemos dizer que há basicamente dois
mecanismos de manutenção da dependência química ao álcool:
inicialmente há o reforço pelo estímulo positivo, pela busca de
gratificação e prazer dadas pelo álcool. À medida que o
indivíduo se torna tolerante às primeiras doses passa a ser
necessária sua elevação para voltar a ter o mesmo prazer das
primeiras doses. Nessa fase o indivíduo já é dependente e está
em aprofundamento e agravamento da dependência. A bebida não dá
mais prazer algum e por outro lado trouxe uma série de problemas
pessoais e sociais; o alcoólatra está preso ao vício porque ao
tentar interromper o consumo de álcool surgem os efeitos da
abstinência. Nessa fase o alcoolista bebe não mais por prazer,
mas para não sofrer os efeitos da abstinência alcoólica. É nesta
fase que o acamprosato atua. Além de inibir os efeitos agudos da
abstinência como os benzodiazepínicos fazem, o acamprosato inibe
o desejo pelo álcool nessa fase, diminuindo as taxas de recaída
para os pacientes que interromperam o consumo de álcool. A
principal atividade do acamprosato é sobre os neurotransmissores
gabaérgicos, taurinérgicos e glutamatérgicos, envolvidos no
mecanismo da abstinência alcoólica. O acamprosato tem poucos
efeitos colaterais: os principais indicados foram consufão
mental leve, dificuldade de concentração, alterações das
sensações nos membros inferiores, dores musculares, vertigens.
Ondansetrona
Esta medicação vem sendo usada e aprovada como inibidor de
vômitos, principalmente nos pacientes que fazem uso de
medicações que provocam fortes enjôos como alguns
quimioterápicos. Está em estudo a utilização na bulimia nervosa
para conter os vômitos induzidos por esses pacientes. Mais
recentemente vem sendo estudado seu efeito no tratamento do
álcool. Esses estudos ainda estão em fase preliminar; uma
possível aprovação para o alcoolismo deverá levar talvez alguns
anos. Essa medicação tem um efeito específico como antagonista
do receptor serotoninégico 5-HT3. Por enquanto há poucos estudos
da eficácia da Ondansetrona no alcoolismo, o que se obteve, por
enquanto, é uma maior eficácia no tratamento do alcoolismo nas
fases iniciais. Alcoolistas de longa data e doses altas não
apresentaram resultado muito superior ao placebo. Se aprovada
hoje, sua utilização recairia sobre os pacientes alcoólatras há
pouco tempo. A forma de ação é parecida a da naltrexona,
inibindo o reforço positivo, o prazer que o álcool dá nas fases
iniciais do alcoolismo. Os pacientes que tomam Ondansetrona
tendem a beber menos que o habitual. Os autores de um recente
trabalho com a Ondansetrona (JAMA. 2000;284:963-971)
consideraram-se frustrados com o resultado clínico obtido.
Problemas
Clínicos
Diversos são os problemas causados pela bebida alcoólica pesada
e prolongada. Fugiria ao nosso objetivo entrar em detalhes a
esse respeito, por isso abordaremos o tema superficialmente.
Sistema Nervoso - Amnésias nos períodos de embriaguez acontecem
em 30 a 40% das pessoas no fim da adolescência e início da
terceira década de vida: provavelmente o álcool inibe algum dos
sistemas de memória impedindo que a pessoa se recorde de fatos
ocorridos durante o período de embriaguez. Induz a sonolência,
mas o sono sob efeito do álcool não é natural, tendo sua
estrutura registrada no eletroencefalograma alterado. Entre 5 e
15% dos alcoólatras apresentam neuropatia periférica. Este
problema consiste num permanente estado de hipersensibilidade,
dormência, formigamento nas mãos, pés ou ambos. Nas síndromes
alcoólicas pode-se encontrar quase todas as patologias
psiquiátricas: estados de euforia patológica, depressões,
estados de ansiedade na abstinência, delírios e alucinações,
perda de memória e comportamento desajustado.
Sistema Gastrintestinal - Grande quantidade de álcool ingerida
de uma vez pode levar a inflamação no esôfago e estômago o que
pode levar a sangramentos além de enjôo, vômitos e perda de
peso. Esses problemas costumam ser reversíveis, mas as varizes
decorrentes de cirrose hepática além de irreversíveis, são
potencialmente fatais devido ao sangramento de grande volume que
pode acarretar. Pancreatites agudas e crônicas são comuns nos
alcoólatras constituindo-se uma emergência à parte. A cirrose
hepática é um dos problemas mais falados dos alcoólatras; é um
problema irreversível e incompatível com a vida, levando o
alcoólatra lentamente à morte.
Câncer - Os alcoólatras estão 10 vezes mais sujeitos a qualquer
forma de câncer que a população em geral.
Sistema Cardiovascular - Doses elevadas por muito tempo provocam
lesões no coração provocando arritmias e outros problemas como
trombos e derrames conseqüentes. É relativamente comum a
ocorrência de um acidente vascular cerebral após a ingestão de
grande quantidade de bebida.
Hormônios Sexuais - O metabolismo do álcool afeta o balanço dos
hormônios reprodutivos no homem e na mulher. No homem o álcool
contribui para lesões testiculares o que prejudica a produção de
testosterona e a síntese de esperma. Já com cinco dias de uso
contínuo de 220 gramas de álcool os efeitos acima mencionados
começam a se manifestar e continua a se aprofundar com a
permanência do álcool. Essa deficiência contribui para a
feminilização dos homens, com o surgimento, por exemplo, de
ginecomastia (presença de mamas no homem).
Hormônios Tireoideanos - Não há evidências de que o alcoolismo
afete diretamente os níveis dos hormônios tireoideanos. Há
pacientes alcoólatras que apresentam alterações tanto para mais
como para menos nos níveis desses hormônios; presume-se que
quando isso ocorre seja de forma indireta por afetar outros
sistemas do corpo.
Hormônio do crescimento - Alterações são observadas em
indivíduos que abusam de álcool, mas essas alterações não
provocam problemas detectáveis como inibição do crescimento ou
baixa estatura, pelo menos até o momento.
Hormônio Antidiurético - Esse hormônio inibe a perda de água
pelos rins, o álcool inibe esse hormônio: como resultado a
pessoa perde mais água que o habitual, urina mais, o que pode
levar a desidratação.
Ociticina - Esse hormônio é responsável pelas contrações do
útero no parto. O álcool tanto pode inibir um parto prematuro
como atrapalhar um parto a termo, podendo tanto ser terapêutico
como danoso.
Insulina - O álcool não afeta diretamente os níveis de insulina:
quando isso acontece é por causa de uma possível pancreatite que
é outro processo distinto. A diminuição do açúcar no sangue não
se deve a ação do álcool sobre a insulina ou sobre o glucagon
(outro hormônio envolvido no metabolismo do açúcar).
Gastrina - Este hormônio estimula a secreção de ácido no
estômago preparando-o para a digestão. O principal estímulo para
a secreção de gastrina é a presença de alimentos no estômago,
principalmente as proteínas. É controverso o efeito do álcool
sobre a gastrina, alguns pesquisadores dizem que o álcool não
provoca sua liberação, outros dizem que provoca, o que levaria
ao aumento da acidez estomacal. Podem provocar úlceras no
aparelho digestivo.
Recaída
A taxa de recaída (voltar a beber depois de ter se tornado
dependente e parado com o uso de álcool) é muito alta:
aproximadamente 90% dos alcoólatras voltam a beber nos 4 anos
seguintes a interrupção, quando nenhum tratamento é feito. A
semelhança com outras formas de dependência como a nicotina,
tranqüilizantes, estimulantes, etc, levam a crer que um há um
mecanismo psicológico (cognitivo) em comum. O dependente que
consiga manter-se longe do primeiro gole terá mais chances de
contornar a recaída. O aspecto central da recaída é o chamado
"craving", palavra sem tradução para o português que significa
uma intensa vontade de voltar a consumir uma droga pelo prazer
que ela causa. O craving é a dependência psicológica
propriamente dita.
As mulheres são
mais vulneráveis ao álcool que os homens?
Aparentemente as mulheres são mais vulneráveis sim. Elas atingem
concentrações sanguíneas de álcool mais altas com as mesmas
doses quando comparadas aos homens. Parece também que sob a
mesma carga de álcool os órgãos das mulheres são mais
prejudicados do que o dos homens. A idade onde se encontra a
maior incidência de alcoolismo feminino está entre 26e 34 anos,
principalmente entre mulheres separadas. Se a separação foi
causa ou efeito do alcoolismo isto ainda não está claro. As
conseqüências do alcoolismo sobre os órgãos são diferentes nas
mulheres: elas estão mais sujeitas a cirrose hepática do que o
homem. Alguns estudos mostram que o consumo moderado de álcool
diário aumenta as chances de câncer de mama. Um drink por dia
não afeta a incidência desse câncer.
Filhos de
Alcoólatras
Milhões de crianças e adolescentes convivem com algum parente
alcoólatra no Brasil. As estatísticas mostram que eles estarão
mais sujeitos a problemas emocionais e psiquiátricos do que a
população desta faixa etária não exposta ao problema, o que de
forma alguma significa que todos eles serão afetados. Na verdade
59% não desenvolvem nenhum problema. O primeiro problema que
podemos citar é a baixa auto-estima e auto-imagem com
conseqüentes repercussões negativas sobre o rendimento escolar e
demais áreas do funcionamento mental, inclusive em testes de QI.
Esses adolescentes e crianças tendem quando examinados a
subestimarem suas próprias capacidades e qualidades. Outros
problemas comuns em filhos e parentes de alcoólatras são
persistência em mentiras, roubo, conflitos e brigas com colegas,
vadiagem e problemas com o colégio.
O alcoolismo é
genético?
Esta pergunta bastante antiga vem sendo mais bem estudada nas
últimas décadas através de estudos com gêmeos, e será mais
aprofundada com o projeto genoma. A influência familiar do
alcoolismo é um fato já conhecido e aceito. O que se pergunta é
se o alcoolismo ocorre por influência do convívio ou por
influência genética. Para responder a essa pergunta a melhor
maneira é a verificação prática da influência, o que pode ser
feito estudando os filhos dos alcoólatras. Estudos como esses
podem investigar os gêmeos monozigóticos (idênticos) e os
dizigóticos. Constatou-se que quando um dos gêmeos idênticos se
torna alcoólatra o irmão se torna mais freqüentemente alcoólatra
do que os irmãos gêmeos não idênticos. Essa constatação mostra a
influência genética real, mas não explica porque, mesmo tendo os
"gens do alcoolismo," uma pessoa não se torna alcoólatra. Os
estudos familiares mostraram que a participação genética é
inegável, mas apenas parcial, os demais fatores que levam ao
desenvolvimento do alcoolismo não estão suficientemente claros.
Problemas
Psiquiátricos Causados pelo Alcoolismo
Abuso de Álcool
A pessoa que abusa de álcool não é necessariamente alcoólatra,
ou seja, dependente e faz uso continuado. O critério de abuso
existe para caracterizar as pessoas que eventualmente, mas
recorrentemente têm problemas por causa dos exagerados consumos
de álcool em curtos períodos de tempo. Critérios: para se fazer
esse diagnóstico é preciso que o paciente esteja tendo problemas
com álcool durante pelo menos 12 meses e ter pelo menos uma das
seguintes situações: a) prejuízos significativos no trabalho,
escola ou família como faltas ou negligências nos cuidados com
os filhos. b) exposição a situações potencialmente perigosas
como dirigir ou manipular máquinas perigosas embriagado. c)
problemas legais como desacato a autoridades ou superiores. d)
persistência no uso de álcool apesar do apelo das pessoas
próximas em que se interrompa o uso.
Dependência ao Álcool
Para se fazer o diagnóstico de dependência alcoólica é
necessário que o usuário venha tendo problemas decorrentes do
uso de álcool durante 12 meses seguidos e preencher pelo menos 3
dos seguintes critérios: a) apresentar tolerância ao álcool --
marcante aumento da quantidade ingerida para produção do mesmo
efeito obtido no início ou marcante diminuição dos sintomas de
embriaguez ou outros resultantes do consumo de álcool apesar da
continua ingestão de álcool. b) sinais de abstinência -- após a
interrupção do consumo de álcool a pessoa passa a apresentar os
seguintes sinais: sudorese excessiva, aceleração do pulso (acima
de 100), tremores nas mãos, insônia, náuseas e vômitos, agitação
psicomotora, ansiedade, convulsões, alucinações táteis. A
reversão desses sinais com a reintrodução do álcool comprova a
abstinência. Apesar do álcool "tratar" a abstinência o
tratamento de fato é feito com diazepam ou clordiazepóxido dentre
outras medicações. c) o dependente de álcool geralmente bebe
mais do que planejava beber d) persistente desejo de voltar a
beber ou incapacidade de interromper o uso. e) emprego de muito
tempo para obtenção de bebida ou recuperando-se do efeito. f)
persistência na bebida apesar dos problemas e prejuízos gerados
como perda do emprego e das relações familiares.
Abstinência alcoólica
A síndrome de abstinência constitui-se no conjunto de sinais e
sintomas observado nas pessoas que interrompem o uso de álcool
após longo e intenso uso. As formas mais leves de abstinência se
apresentam com tremores, aumento da sudorese, aceleração do
pulso, insônia, náuseas e vômitos, ansiedade depois de 6 a 48
horas desde a última bebida. A síndrome de abstinência leve não
precisa necessariamente surgir com todos esses sintomas, na
maioria das vezes, inclusive, limita-se aos tremores, insônia e
irritabilidade. A síndrome de abstinência torna-se mais perigosa
com o surgimento do delirium tremens. Nesse estado o paciente
apresenta confusão mental, alucinações, convulsões. Geralmente
começa dentro de 48 a 96 horas a partir da ultima dose de
bebida. Dada a potencial gravidade dos casos é recomendável
tratar preventivamente todos os pacientes dependentes de álcool
para se evitar que tais síndromes surjam. Para se fazer o
diagnóstico de abstinência, é necessário que o paciente tenha
pelo menos diminuído o volume de ingestão alcoólica, ou seja,
mesmo não interrompendo completamente é possível surgir a
abstinência. Alguns pesquisadores afirmam que as abstinências
tornam-se mais graves na medida em que se repetem, ou seja, um
dependente que esteja passando pela quinta ou sexta abstinência
estará sofrendo os sintomas mencionados com mais intensidade,
até que surja um quadro convulsivo ou de delirium tremens. As
primeiras abstinências são menos intensas e perigosas.
Delirium Tremens
O Delirium Tremens é uma forma mais intensa e complicada da
abstinência. Delirium é um diagnóstico inespecífico em
psiquiatria que designa estado de confusão mental: a pessoa não
sabe onde está, em que dia está, não consegue prestar atenção em
nada, tem um comportamento desorganizado, sua fala é
desorganizada ou ininteligível, a noite pode ficar mais agitado
do que de dia. A abstinência e várias outras condições médicas
não relacionadas ao alcoolismo podem causar esse problema. Como
dentro do estado de delirium da abstinência alcoólica são comuns
os tremores intensos ou mesmo convulsão, o nome ficou como
Delirium Tremens. Um traço comum no delírio tremens, mas nem
sempre presente são as alucinações táteis e visuais em que o
paciente "vê" insetos ou animais asquerosos próximos ou pelo seu
corpo. Esse tipo de alucinação pode levar o paciente a um estado
de agitação violenta para tentar livrar-se dos animais que o
atacam. Pode ocorrer também uma forma de alucinação induzida,
por exemplo, o entrevistador pergunta ao paciente se está vendo
as formigas andando em cima da mesa sem que nada exista e o
paciente passa a ver os insetos sugeridos. O Delirim Tremens é
uma condição potencialmente fatal, principalmente nos dias
quentes e nos pacientes debilitados. A fatalidade quando ocorre
é devida ao desequilíbrio hidro-eletrolítico do corpo.
Intoxicação pelo álcool
O estado de intoxicação é simplesmente a conhecida embriaguez,
que normalmente é obtida voluntariamente. No estado de
intoxicação a pessoa tem alteração da fala (fala arrastada),
descoordenação motora, instabilidade no andar, nistagmo (ficar
com olhos oscilando no plano horizontal como se estivesse lendo
muito rápido), prejuízos na memória e na atenção, estupor ou
coma nos casos mais extremos. Normalmente junto a essas
alterações neurológicas apresenta-se um comportamento inadequado
ou impróprio da pessoa que está intoxicada. Uma pessoa muito
embriagada geralmente encontra-se nessa situação porque quis,
uma leve intoxicação em alguém que não está habituado é
aceitável por inexperiência mas não no caso de alguém que
conhece seus limites.
Wernicke-Korsakoff (síndrome amnéstica)
Os alcoólatras "pesados" em parte (10%) desenvolvem algum
problema grave de memória. Há dois desses tipos: a primeira é a
chamada Síndrome Wernicke-Korsakoff (SWK) e a outra a demência
alcoólica. A SWK é caracterizada por descoordenação motora,
movimentos oculares rítmicos como se estivesse lendo (nistagmo)
e paralisia de certos músculos oculares, provocando algo
parecido ao estrabismo para quem antes não tinha nada. Além
desses sinais neurológicos o paciente pode estar em confusão
mental, ou se com a consciência clara, pode apresentar prejuízos
evidentes na memória recente (não consegue gravar o que o
examinador falou 5 minutos antes) e muitas vezes para preencher
as lacunas da memória o paciente inventa histórias, a isto
chamamos fabulações. Este quadro deve ser considerado uma
emergência, pois requer imediata reposição da vitamina
B1(tiamina) para evitar um agravamento do quadro. Os sintomas
neurológicos acima citados são rapidamente revertidos com a
reposição da tiamina, mas o déficit da memória pode se tornar
permanente. Quando isso acontece o paciente apesar de ter a
mente clara e várias outras funções mentais preservadas,
torna-se uma pessoa incapaz de manter suas funções sociais e
pessoais. Muitos autores referem-se a SWK como uma forma de
demência, o que não está errado, mas a demência é um quadro mais
abrangente, por isso preferimos o modelo americano que
diferencia a SWK da demência alcoólica.
Síndrome Demencial Alcoólica
Esta é semelhante a demência propriamente dita como a de
Alzheimer. No uso pesado e prolongado do álcool, mesmo sem a
síndrome de Wernick-Korsakoff, o álcool pode provocar lesões
difusas no cérebro prejudicando além da memória a capacidade de
julgamento, de abstração de conceitos; a personalidade pode se
alterar, o comportamento como um todo fica prejudicado. A pessoa
torna-se incapaz de sustentar-se.
Síndrome de
abstinência fetal
A Síndrome de Abstinência Fetal descrita pela primeira vez em
1973 era considerada inicialmente uma conseqüência da
desnutrição da mãe, posteriormente viu-se que os bebês das mães
alcoólatras apresentavam problemas distintos dos bebês das mães
desnutridas, além de outros problemas que esses não tinham.
Constatou-se assim que os recém-natos das mães alcoólatras
apresentam um problema específico, sendo então denominada
Síndrome de Abstinência Fetal (SAF). As características da SAF
são: baixo peso ao nascer, atraso no crescimento e no
desenvolvimento, anormalidades neurológicas, prejuízos
intelectuais, más formações do esqueleto e sistema nervoso,
comportamento perturbado, modificações na pálpebra deixando os
olhos mais abertos que o comum, lábio superior fino e alongado.
O retardo mental e a hiperatividade são os problemas mais
significativos da SAF. Mesmo não havendo retardo é comum ainda o
prejuízo no aprendizado, na atenção e na memória; e também
descoordenação motora, impulsividade, problemas para falar e
ouvir. O déficit de aprendizado pode persistir até a idade
adulta.
O estresse pode
provocar alcoolismo?
O estresse não determina o alcoolismo, mas estudos mostraram que
pessoas submetidas a situações estressantes para as quais não
encontra alternativa, tornam-se mais freqüentemente alcoólatras.
O álcool possui efeito relaxante e tranqüilizante semelhante ao
dos ansiolíticos. O problema é que o álcool tem muito mais
efeitos colaterais que os ansiolíticos. Numa situação dessas o
uso de ansiolíticos poderia prevenir o surgimento de alcoolismo.
Na verdade o que se encontra é a vontade de abolir as
preocupações com a embriaguez e isso os ansiolíticos não
proporcionam, ou o fazem em doses que levariam ao sono. O homem
quando submetido a estresse tende a procurar não a
tranqüilidade, mas o prazer. Daí que a vida sexualmente
promíscua muitas vezes é acompanhada de abuso de álcool e
drogas. O fato de uma pessoa não encontrar uma solução para seu
estresse não significa que a solução não exista. A Logoterapia,
por exemplo, ajuda o paciente a encontrar um significado na sua
angústia. Não suprime a fonte da angústia, mas a torna mais
suportável. Quando uma dor adquire um sentido, torna-se possível
contorná-la, continuar a vida com um sorriso, desde que ela não
seja incapacitante. Sob esse aspecto a logoterapia pode ajudar a
vencer o alcoolismo nas suas etapas iniciais, quando ainda não
surgiu dependência química. Uma situação de estresse real que
passamos atualmente é o desemprego. Este problema social é de
difícil resolução e geralmente faz com que as pessoas se ajustem
às custas de elevação da tensão emocional prolongada, que é a
mesma coisa de estresse.
Alcoolismo e
desnutrição
As principais funções do processo alimentar são a manutenção da
estrutura corporal e das necessidades energéticas diárias. Uma
alimentação equilibrada proporciona o que precisamos. O álcool é
uma substância bastante energética, em épocas passadas, chegou a
ser usado em pacientes após cirurgias para uma reposição mais
rápida da energia perdida na cirurgia. Apesar de altamente
calórico o álcool não é armazenável. Não fossem os efeitos
prejudiciais ao longo do tempo, o álcool seria um excelente meio
de perder peso. Para que se possa entender como o álcool fornece
energia e ao mesmo tempo não é armazenável é necessário entender
seu mecanismo metabólico o que não será abordado aqui. Pelo fato
do usuário de álcool possuir suas necessidades energéticas
supridas ele não sente muita ou nenhuma fome, assim não há
vontade de comer. A diminuição da oferta das substâncias
(proteínas, açucares, gorduras, vitaminas e minerais) usadas na
constante reconstrução dos tecidos, não interrompe o processo de
destruição natural das células que estão sendo substituídas
constantemente. Assim o corpo do alcoólatra começa a se
consumir. Esse processo leva a desnutrição.
Testes
Neuropsicológicos
Os pacientes alcoólatras confirmados ao se submeterem a testes
de inteligência apresentam 45 a 70% normais. Contudo, esses
mesmos ao fazerem testes mais específicos em determinadas áreas
do funcionamento mental, como a capacidade de resolver
problemas, pensamento abstrato, desempenho psicomotor, memória e
capacidade de lidar com novidades, costumam apresentar
problemas. Os testes normalmente representam atividades
desempenhadas diariamente e não situações especiais ou raras.
Este resultado mostra que os testes superficiais deixam passar
comprometimentos significativos. Os testes neuropsicológicos são
mais adequados e precisos na medição de capacidades mentais
comprometidas pelo álcool. Tem sido observado também que no
cérebro dos alcoólatras ocorrem modificações na estrutura
apresentada nos exames de tomografia ou ressonância, além de
comprometimento na vascularização e nos padrões elétricos. Como
esses achados são recentes, não houve tempo para se estudar a
relação entre essas alterações laboratoriais e os prejuízos
psicológicos que eles representam.
Efeitos do
Álcool sobre o Cérebro
Os resultados de exames pos-mortem (necropsia) mostram que
pacientes com história de consumo prolongado e excessivo de
álcool têm o cérebro menor, mais leve e encolhido do que o
cérebro de pessoas sem história de alcoolismo. Esses achados
continuam sendo confirmados pelos exames de imagem como a
tomografia, a ressonância magnética e a tomografia por emissão
de fótons. O dano físico direto do álcool sobre o cérebro é um
fato já inquestionavelmente confirmado. A parte do cérebro mais
afetada costumam ser o córtex pré-frontal, a região responsável
pelas funções intelectuais superiores como o raciocínio,
capacidade de abstração de conceitos e lógica. Os mesmos estudos
que investigam as imagens do cérebro identificam uma
correspondência linear entre a quantidade de álcool consumida ao
longo do tempo e a extensão do dano cortical. Quanto mais álcool
mais dano. Depois do córtex, regiões profundas seguem na lista
de mais acometidas pelo álcool: as áreas envolvidas com a
memória e o cerebelo que é a parte responsável pela coordenação
motora.
O Processo
Metabólico do Álcool
Quando o álcool é consumido passa pelo estômago e começa a ser
absorvido no intestino caindo na corrente sanguínea. Ao passar
pelo fígado começa a ser metabolizado, ou seja, a ser
transformado em substâncias diferentes do álcool e que não
possuem os seus efeitos. A primeira substancia formada pelo
álcool chama-se acetaldeído, que é depois convertido em acetado
por outras enzimas, essas substâncias assim com o álcool
excedente são eliminados pelos rins; as que eventualmente voltam
ao fígado acabam sendo transformadas em água e gás carbônico
expelido pelos pulmões. A passagem do intestino para o sangue se
dá de acordo com a velocidade com que o álcool é ingerido, já o
processo de degradação do álcool pelo fígado obedece a um ritmo
fixo podendo ser ultrapassado pela quantidade consumida. Quando
isso acontece temos a intoxicação pelo álcool, o estado de
embriaguez. Isto significa que há muito álcool circulando e
agindo sobre o sistema nervoso além dos outros órgãos. Como a
quantidade de enzimas é regulável, um indivíduo com uso contínuo
de álcool acima das necessidades estará produzindo mais enzimas
metabolizadoras do álcool, tornando-se assim mais "resistente"
ao álcool. A presença de alimentos no intestino lentifica a
absorção do álcool. Quanto mais gordura houver no intestino mais
lenta se tornará a absorção do álcool. Apesar do álcool ser
altamente calórico (um grama de álcool tem 7,1 calorias; o
açúcar tem 4,5), ele não fornece material estocável; assim a
energia oferecida pelo álcool é utilizada enquanto ele circula
ou é perdida. A famosa "barriga de chop" é dada mais pelos
aperitivos que acompanham a bebida.
Consequências
corporais do alcoolismo
À medida que o alcoolismo avança, as repercussões sobre o corpo
se agravam. Os órgãos mais atingidos são: o cérebro, trato
digestivo, coração, músculos, sangue, glândulas hormonais. Como
o álcool dissolve o mucus do trato digestivo, provoca irritação
na camada externa de revestimento que pode acabar provocando
sangramentos. A maioria dos casos de pancreatite aguda (75%) são
provocados por alcoolismo. As afecções sobre o fígado podem ir
de uma simples degeneração gordurosa à cirrose que é um processo
irreversível e incompatível com a vida. O desenvolvimento de
patologias cardíacas pode levar 10 anos por abusos de álcool e
ao contrário da cirrose pode ser revertida com a interrupção do
vício. Os alcoólatras tornam-se mais susceptíveis a infecções
porque suas células de defesas são em menor número. O álcool
interfere diretamente com a função sexual masculina, com
infertilidade por atrofia das células produtoras de
testosterona, e diminuição dos hormônios masculinos. O
predomínio dos hormônios femininos nos alcoólatras do sexo
masculino leva ao surgimento de características físicas
femininas como o aumento da mama (ginecomastia). O álcool pode
afetar o desejo sexual e levar a impotência por danos causados
nos nervos ligados a ereção. Nas mulheres o álcool pode afetar a
produção hormonal feminina, levando diminuição da menstruação,
infertilidade e afetando as características sexuais femininas.