Surfe-História
Para todos nos surfistas, que
amamos nosso esporte, é quase que uma obrigação entender
suas raízes e seu profundo eco em nossas mentes. Ninguém
sabe ao certo onde o surfe se originou se entendermos o
surfe na sua mais pura concepção, ou seja, o ato de deslizar
sobre uma onda. Algumas teorias nos levam a África
ocidental, outras ainda nos remetem para os anos 200 a 600
d.C. à costa norte do Peru, onde nativos deslizaram sobre as
ondas utilizando embarcações feitas de fibra de junco
medindo aproximadamente 3 metros de comprimento, conhecidas
como Cabalos de Totora.
Tudo nos leva a crer que o surfe como cultura nasceu no
Havaí. Entretanto, para que possamos compreender o seu real
significado, temos que seguir desvendando as características
do povo polinésio, pois para sabermos onde um povo se situa
em um contexto cultural, é fundamental saber de onde ele
emergiu. E esse é um dos maiores enigmas antropológicos de
nossos tempos. Como esse povo alcançou as ilhas mais remotas
do planeta?
Polinésia literalmente significa muitas ilhas. Distribuídas
em uma área de mais de 10 milhões de milhas quadradas, e que
formam um triangulo conhecido como triangulo polinésio. O
termo foi criado pelo magistrado francês Charles de Brosses
em 1756, combinando duas palavras de origem grega. A região
é delimitada pelo arquipélago havaiano ao norte, as Ilhas
Rapa Nui (Ilhas de Páscoa) situadas a sudeste e Aotearoa
(Nova Zelândia), situada na região sudoeste do pacifico.
Atualmente a polinésia é considerada uma nação, graças às
descobertas de um dos maiores navegadores e exploradores de
todos os tempos, o capitão inglês James Cook. Entre 1768 a
1779, Cook desbravou a polinésia de norte a sul e de leste a
oeste.
Comandando suas naus Endeavour e Resolution, este inglês foi
o primeiro navegador da fase européia de expansão global a
documentar as similaridades lingüísticas, religiosas e
tecnológicas entre os diferentes ilhéus desta vasta região
do globo. Cook, ao que tudo indica, foi um explorador que se
diferenciou dos demais exploradores europeus que o
antecederam, pois, admirava e respeitava a cultura desses
“novos” povos, a ponto de chegar a aprender rudimentos do
dialeto polinésio com um nativo taitiano de nome Tupaia, com
quem travou uma amizade durante sua estadia nesta região.
Foi Tupaia que começou esclarecer o mistério para James Cook.
Segundo ele, os polinésios orientavam-se em suas longas
jornadas marítimas utilizando-se do sol, da lua e das
estrelas, alem da direção das ondulações, e da migração dos
pássaros marinhos como referencia de rota.
Mas foi muito antes de o capitão James Cook adentrar na baia
de Kealakekua, os havaianos já dominavam esta nobre arte.
Deslizar sobre ondas usando uma pequenina prancha de madeira
já era parte da rotina da grande maioria dos ilhéus da
polinésia.
Os havaianos tomaram este habito, desenvolvendo pranchas
enormes, refinaram-se na arte de shape (manufatura das
pranchas), criaram novas técnicas e elevaram o surfe ao mais
alto patamar dentro de sua cultura.
Duas linhagens de pranchas foram identificadas na polinésia:
os bodyboards, mais conhecidos como paipos e as pranchas
maiores que possibilitavam o surfe de pé.
Alguns anos mais tarde, e duas mil milhas abaixo do Havaí,
James Morrison relatou a pratica do surfe por nativos do
Taiti, e ainda existem vários relatos semelhantes na remota
Rapa Nui e também em Aotearoa.
Inúmeras lendas descrevem longas viagens de canoa entre o
Taiti e o Havaí. Uma delas conta a historia de um rei, que
tendo navegado do Taiti ao Havaí, fixou residência
permanente em um famoso local de surfe no Kauai.
Em 1823, o missionário C.S. Stewart observou que em Maui, a
prancha de surfe era um importante artigo de propriedade
privada entre todos os grandes chefes daquela ilha. Os
nativos passavam literalmente horas praticando surfe. Outro
missionário de nome Ellis relata: “Quando as ondas chegavam,
os vilarejos ficavam completamente vazios. Tarefas do
cotidiano tais como pesca atividades de plantio e de
construção, eram totalmente esquecidas e deixadas de lado,
enquanto toda a comunidade, homens, mulheres e crianças
passavam o dia a divertir-se nas ondas que quebravam sobre
os corais.”.
Analisando os antigos textos havaianos, fica patente e muito
clara a imensa liberdade sexual que este povo vivenciou. E
como não poderia deixar de ser, o surfe também teve uma
participação muito significativa nesse contexto.
O fato de os ilhéus surfarem praticamente nus demonstrava a
falta de constrangimento destes, e a forma simples e
descompromissada com a qual encaravam sua sexualidade.
A sociedade polinésia possuía uma serie de tabus conhecidos
como kapu. Uma outra característica marcante da sociedade
havaiana era a competição de surfe.
O surfe era também o ponto central do maior festival
havaiano existente. Era uma celebração anual chamada
Makahiki. O Deus Lono era o patrono deste festival, e todas
as celebrações eram realizadas em sua homenagem.
Entre os inúmeros deuses havaianos, entretanto, não existe
nenhuma menção especial a um deus do surfe. Já no Taiti,
Ellis nos fala de um Deus conhecido como Huaouri e
relacionado diretamente com as práticas do surfe.
Os havaianos tinham tantas palavras para designar ondas como
o esquimó as tem para designar neve. Abaixo, algumas
julgadas pertinentes:
Ale lauloa = onda longa e grande.
He’ e nalu = fazer surfe, surfista.
He’ ó’ la ka meã háwáwá I ka he’e nalu = o surfista
inexperiente cai.
Kaha nalu, he’e umauma = Bodysurf.
Kai emi, nalu miki = onda causada pela arrebentação.
Kai po’i, nalu há’i = onda que arrebenta.
Malu há’i lala = onda que arrebenta na diagonal.
Nalu = arrebentação, oceano, onda.
Nalu kua loloa = onda longa.
Nalunalu = onda imperfeita.
Pae = surfar uma onda.
Pae i ka nalu = surfar uma onda até a praia.
Paka = surfar com canoa.
Papa he nalu = prancha de surfe.
Wahine = mulher surfista.
Morte e renascimento do
surfe
Do ápice de seu desenvolvimento, toda a cultura rapidamente
começou a entrar em declínio, e o surfe, por volta de 1900,
quase que desapareceu por completo nas ilhas. Já em 1844, em
um volume intitulado scenes and Scenery in the Sandwich
Islands, Jarves observou que a prática do surfe nas ilhas já
não passava de um mero acontecimento ocasional.
O declínio do surfe foi uma mera parte de um desastre muito
maior ocorrido nas ilhas do Havaí, e porque não dizer, em
quase toda polinésia.
Da chegada dos primeiros europeus em 1778, ate a anexação
das ilhas aos EUA em 1898, virtualmente todos os esportes,
passatempos e cultura dos havaianos desapareceram. Os ilhéus
gradativamente perderam sua independência social, política,
econômica e consequentemente, sua identidade.
Em 1890 a população nativa do Havaí era de somente 40 mil
indivíduos. Algumas estimativas sugerem que em épocas
pré-europeias a população tenha atingido a cifra de 400 a
800 mil nativos.
Para completar esse cenário uma nova religião foi implantada
no arquipélago, com novas restrições e novos sistemas de
sobrevivência a Deus. Os missionários europeus tentaram por
todos os meios influenciar os ilhéus e converte-los ao ramo
Calvinista do Cristianismo, que julgava imoral suas
vestimentas, sua abusiva liberdade sexual e seus passatempos
que impediam o desenvolvimento cientifico e tecnológico.
Alguns europeus chegaram a ponto de associar a pratica do
surfe ao satanismo.
Morte e Renascimento do
surfe no século XX
Alexandre Hume Ford, George Freeth, Jack London e o príncipe
Duke Paoa Kahanamoku foram alguns dos protagonistas centrais
deste renascimento.
Vitimados pela dizimação de seu passado e sedentos por
reconquistar ao menos parte de sua gloria de outrora, esse
povo iniciou em meados da década de 60 um projeto de
redescobrimento de suas origens. Essa reação cultural se deu
em um momento crucial, quando diversos segmentos de sua
cultura estavam prestes a dar seus ultimo suspiro e
perder-se no âmago do tempo.
Em 1976 o Hokule’a parte do arquipélago havaiano rumo ao
Taiti, levando como tripulação somente polinésios. A
travessia é feita com sucesso e repetida em 1978, onde um
acidente tirou a vida de um de seus tripulantes, o grande
surfista e salva vidas do North Shore (costa norte da ilha
de Oahu) o havaiano Eddie Aikau. Que por um ato de heroísmo
saiu remando com sua prancha atrás de socorro e nunca mais
foi visto tempo depois toda tripulação do barco foi
resgatada.
Waikiki, berço do
Renascimento.
Durante o século dezenove, alguns haoles (estrangeiros)
aprenderam a surfar, muito embora o grande escritor
americano Mark Twain, durante sua visita ao Havaí em 1860,
tenha afirmado: “Ninguém, a não serem os nativos havaianos,
é capaz de dominar a arte do surfe completamente”.
Entre esses intrépidos haoles estava George Freeth, um jovem
irlandês de vinte e três anos de idade que fixou residência
permanente nas ilhas e se tornou um dos melhores surfistas
de todo o arquipélago. Freeth era professor de surfe nas
ilhas e um dos responsáveis pela divulgação desse esporte
para alem das fronteiras havaianas. Em 1907, George Freeth
foi convidado por Henry Huntington para fazer uma
demonstração de surfe em Redondo beach, na Califórnia. Essa
demonstração fazia parte de um plano de marketing destinado
a promover a estrada de ferro Los Angeles- Redondo Beach. Na
época os jornais publicaram a seguinte Manchete: “George
Freeth, o homem que pode andar sobre a água!”.
Mas, muitos anos antes de Freeth divulgar o surf em águas
californianas, três verdadeiros príncipes havaianos deram
inúmeras demonstrações daquilo que era o surf primitivo.
Isso aconteceu em 1885, quando Jonah Kuhio Kalaniana’ole,
David Kawananakoa e Edward Keli’iahonui estudavam na St.
Matthew’s Military School, em San Mateo, Califórnia.
Também muito proeminente nesse novo movimento foi Alexandre
Hume Ford. Ford, na época um haole completamente envolvido e
apaixonado por esse esporte, dava aula de surfe para jovens
em Waikiki, e em 1907 teve a oportunidade de ministrar aulas
para Jack London.
Jack London escreveu um artigo repleto de sentimentos
passionais sobre o surfe. Esse texto foi publicado
primeiramente na National American Magazine, e
posteriormente em seu livro The Cruise of The Snark, e
recebeu o titulo de “A Royal Sport” (“um esporte real”). Ate
hoje, se lido por um leitor que consiga situar-se no tempo e
no espaço, essa narrativa pode ser considerada a mais bela
já feita sobre nosso esporte.
Outro passo crucial no ressurgimento do surf foi à fundação
do The Hawaiian Outrigger Surf and Canoe Club. Esse clube
iniciou suas atividades em 1908, depois que Freeth e Ford
arrendaram um acre (4.000 m2) de praia em Waikiki.
Em 1911, outro clube de extrema relevância na historia do
surfe foi fundado no Havaí: The Hui Nalu (Surf Clube).
Embora existisse informalmente desde 1905, foi somente em
1911 que obteve sua legitimação, quando passou a ser
oficialmente um clube de surfe apenas para havaianos. A
criação do Hui Nalu foi importante para o surfe, pois criou
um clima de competividade amistosa entre os dois clubes,
incentivando o crescimento de ambos.
Um dos mais famosos do Hui Nalu foi também o surfista mais
influente do século passado: Duke Paoa Kahinu Mokoe
Hulikohoa Kahanamoku, ou simplesmente Duke.
Esse havaiano de sangue real nasceu em 24 de agosto de 1880,
em Haleakala, na ilha da Maui. Seu pai foi Duke Halapu
Kahanamoku e sua mãe chamava-se Julia Paoakania Lonokahini.
Duke era um dos pouquíssimos habitantes das ilhas que ainda
carregava em seu sangue o DNA de uma linhagem havaiana, e
começou a se interessar por surfe no ano de 1898, quando a
maioria já acreditava que esse esporte era uma arte perdida.
A vida de Duke, assim como para seus irmãos e amigos
havaianos, era bem difícil em termos financeiros, logo, essa
“turminha” ganhava a vida dando aulas de surfe e natação no
Moana Hotel. Praia o dia todo, diversão garantida, romances
furtivos e pouca grana: ganhava-se mal, brincava-se
bastante, tocava-se a vida no balanço do mar...
A carreira de Duke foi muito longe. Chamando a atenção de um
extraordinário treinador de natação chamado Syd Cavil, e em
1911 Duke rumou para a Califórnia, mais precisamente para o
Clube Olímpico de San Francisco. Lá, sob a égide de Cavil,
Duke treinou junto com a equipe americana de natação visando
os Jogos Olímpicos de Estolcomo, na Suécia, em 1912.
Chegando lá, Kahanamoku impactou a todos. Não somente venceu
os 100 metros livres com larga vantagem, como também igualou
o recorde mundial de 1’02”4 do alemão Kurt Bretting em uma
das eliminatórias! Alem disso, ficaram com a prata nos 4 x
200 metros livres. O mito estava criado! Um príncipe
havaiano, exótico, simpático e enigmático era o nadador mais
rápido do planeta! O olho do mundo voltava-se para ele e,
consequentemente, para o esplendor de sua terra e de sua
cultura. Enfim, o surfe poderia ter uma chance....
Mas talvez o fato mais marcante da carreira de Duke como
embaixador da cultura havaiana e, consequentemente do surfe,
tenha sido a sua visita à Austrália, em 1914. Duke foi
convidado pela Associação de Natação de Novas Gales do Sul a
participar de um evento esportivo chamado 33-Race Swimming
Tour.
Kahanamoku chegou a Sidney no dia 14 de dezembro, e
imediatamente solicitou aos organizadores do evento a
possibilidade de realizar demonstrações de seu esporte
favorito, o surfe. A data da exibição foi logo marcada para
o dia 23 de dezembro, e o local escolhido foi à praia de
freshwater, ao norte de Sydney.
Os dias que antecederam a demonstração foram de muita
expectativa, pois a imprensa se empenhou em divulgar tal
fato. O jornal The Sydney Referee foi um dos principais
envolvidos no feito de Duke, e suas manchetes referiam-se ao
príncipe como sendo maravilhosamente hábil em uma arte ainda
não dominada pelos australianos.
Outros resultados da
carreira de Duke como nadador olímpico.
Jogos Olímpicos de Estolcomo – Suécia, 10/07/1912.
Prova – 100 metros livres, homens. Paises participantes –
12. Atletas inscritos – 34.
Resultado final:
Nome País de origem Tempo
1 - Duke Kahanamoku USA 1’03” 4
2 – Cecil Healy AUS 1’04” 6
3 – Kenneth Huszagh USA 1’05 “6
4 – Kurt Bretting GER 1’05” 8
5 – Walter Ramme GER 1’06” 4
Jogos Olímpicos de Antuérpia – Bélgica, 29/08/1920.
Prova - 100 metros livres, homens. Paises participantes -
15. Atletas inscritos- 33.
Resultado final:
Nome Pais de origem Tempo
1 - Duke Kahanamoku USA 1’01”4
2 - Pua Kela Kealoha USA 1”02”6
3 - Willian Herris USA 1’03”0
4 - William Herald AUS 1’03”8
5 - George Vernot CAN
Jogos Olímpicos de Paris – França, 20/07/1924.
Prova – 100 metros livres, homens. Paises Participantes -
15. Atletas Inscritos – 30.
Resultado final:
Nome Pais de origem Tempo
1 - Johnny Weissmuller USA 59”0
2 - Duke Kahanamoku USA 1’01”4
3 -Samuel Kahanamoku USA 1’01”8
4 - Arne Borg SWE 1’02”0
Essa busca de prazer nos ofusca o esforço despendido. Na
época de Duke, em que a técnica de nado ainda não estava tão
evoluída, isso foi um grande diferencial em seu sucesso. Um
grande nadador que nunca tinha nadado, mas que tinha dado ao
seu corpo a chance de tornar-se saudável na medida em que se
divertia com seus amigos em seu playground oceânico. Porém,
o governo havaiano, percebendo que a imagem de Duke estava
fortemente atrelada à imagem do próprio arquipélago havaiano
e toda a sua magia, concedeu ao príncipe a possibilidade de
trabalhar como anfitrião da cidade de Honolulu, atividade
que Duke cumpriu com esmero até o final de sua vida.
Um príncipe, uma terra distante, uma prancha feita de
madeira, os sonhos de uma criança... Nada muito requintado,
nenhuma produção milionária... Apenas um roteiro bem escrito
pelos deuses do surfe. Um roteiro pautado na simplicidade e
na generosidade.
Um sorriso para a vida
Ford, Freeth, London e uma infinidade de outros meninos
foram extremamente importantes para o renascimento do nosso
esporte. Porem, não teve a sorte de Duke, pois nosso
príncipe esteve presente na hora certa, no local certo, e
teve também a atitude mais apropriada para aquele momento
mágico.
Duke teve sorte e esperteza ao se utilizar da natação e da
glória olímpica para disseminar pelo mundo afora seu esporte
preferido, juntamente com os resíduos de sua rica cultura.
Alavancou o filho de He’e nalu para a glória futura e
presenteou-nos com sua angelical graça.
Hoje, vivemos um momento totalmente distinto: Em vez de
pranchas de madeira, temos espuma e fibra de vidro; em vez
de porcos e canoas de guerra como prêmio, alguns milhares de
dólares, em vez de reis, mitos gerados pelos meios de
comunicação. Porém, quanto mais algo muda, mais continua
imutável, ao menos na sua essência...
E a essência do surf sempre
foi e sempre será o sorriso!
Duke partiu em 1968, com setenta e sete anos de idade. Um
ataque cardíaco o vitimou no Iate Clube de Waikiki.
O homem que foi responsável pelo renascimento das grandes
pranchas de surfe abandonava a velha terra de He’e nalu no
momento em que o mundo presenciava novamente a morte dos
velhos longboards e o nascimento das minimodels, na mais
devastadora revolução de nosso esporte desde o inicio do
século XX.
Por Alfredo Hanada