O ser do surf é um
viciado. Briga contra qualquer circunstância adversa que o impeça a ir
surfar. Ele é espremido por um impulso agonizante que só pode ser
saciado surfando. Porém, ao mesmo tempo em que a satisfação é
extraordinária ela é curta.
Por isso, logo a vontade volta a bater e quanto mais demorada a ser
satisfeita mais se torna angustiante. A ciência explica isso através da
dependência da adrenalina. No entanto, não é só isso que causa a
subordinação ao surf. Tem algo muito maior que ultrapassa qualquer
explicação racional.
Numa tentativa de se aproximar do(s) motivo(s) dessa dependência irei
repartir o surf. Isto é, descrever todos os seus componentes, para então
esboçar uma conclusão. O primeiro elemento a ser descrito será: O caldo
ou a vaca.
Por maior que seja a onda, por mais grosso que seja o "lip" e mais
sinistra seja a bancada, quando não há uma lesão séria, gostamos de ser
triturados pela massa d'água. É ridículo isso, mas é verdade.
Quando
se toma um caldo, a onda o joga de um lado pro outro, pra cima e pra
baixo, te puxa e te empurra tudo de uma vez. É como se fossemos um
boneco de “geleca”, sendo arremessado por um gigante, estarmos ao meio
de uma batalha medieval, tomando chutes e socos por todos os lados ou
até mesmo em cima de um toro de rodeio.
Essa sensação de indefesa, de imprevisibilidade pra onde seremos
lançados e não existir nada que se possa fazer é agradável. Por quê?
Exatamente por isso, não há nada que se possa fazer. Não tem como
escapar. Não existem técnicas. Não há ninguém que seja melhor de tomar
vaca que outro. Todos são vítimas.
Alongar fora d'água, pra quê? Quando se toma a vaca ela já te alonga
todo: o pé vai à cabeça, o calcanhar bate nas costas, o pescoço dá 360.
Diane dos Santos ficaria com inveja dos nossos movimentos. É necessário
que alguém faça um filme. Acho que isso nunca foi registrado.
A noção de espaço vai por água a baixo (desculpem-me o trocadilho). A
vaca quando é boa nos desorienta totalmente. Nunca se sabe o local onde
fomos parar até emergir a superfície. E mesmo assim, às vezes, rodamos
tanto que demoramos alguns segundos ou até minutos, dependendo do caldo,
para nos localizarmos.
Sobreviver a esse “drama” é uma vitória, ficamos orgulhosos e até
comemoramos. E mesmo se o surf foi clássico, com certeza o caldo
massacrante terá espaço na história contada pós-sessão.
Portanto é isso, o prazer proporcionado pelo caldo é consequência da
brutalidade da onda, dos complexos movimentos corporais e da
impossibilidade de reação e fuga. Para os inexperientes pode ser um
pesadelo. Mas para os que sabem relaxar torna-se prazeroso, dá pra
curtir os detalhes, prestar atenção ao barulho, abrir os olhos lá no
fundo e apreciar a mobilidade do corpo. Sendo assim, a vaca é um
elemento do surf que se pode retirar muito prazer basta se deixar levar.
FONTE: www oserdosurf com br
